24 de agosto de 2012

            

As Aparências enganam


      

JUSTIÇA, QUE justiça???

Entrei displicentemente na sala de audiências porque a Juíza, com quem trabalho me chamara;  iniciaria mais uma, das 30 audiências que fazemos ao dia.
Olhei para  cadeira onde senta o acusado e observei um homem magro, maltratado, com roupas cedidas por terceiros, visto que, além de muito surradas (surradas mesmo), a calça  sem barra, para ficar mais longa, o paletó era grande, e  camisa absolutamente pequena. Ao seu lado, uma mulher,  aparentava uns 65 anos; mas, pela carteira de identidade, era mais nova do que eu (não que seja nova, mas acho que estou conservada), usava um vestido preto, muito simples, de pano barato, e ostentava uma flor branca no decote. Ao seu lado, uma linda jovenzinha, baixa, miúda, com olhos muito expressivos; descobri ter 16 anos de idade.
 Vocês devem  perguntar , mas isso é romance, ou  sala de audiências , num Forum??? Como já relatei, entrei na sala movida por um monte de problemas pessoais; como faço todos os dias, e esperava que  fosse outro dia em que dividiria os problemas de minha cabeça, com os tantos outros que me são apresentados pela criminalidade. Porém, quando aquela jovem começou dar explicações para Juíza, percebi que não seria uma audiência a mais.
 A garota, de cabelos longos e mal alinhados, tomou a palavra e  explicou a rotina de sua vida juntamente com sua família, absolutamente desestruturada.
Pude perceber o quanto fui abençoada nesta vida e quão pouco dou de mim para aqueles que realmente necessitam; não falo de comida, mas de amparo legal, moral e, por que não, de amizade??
 Aquele ato judicial julgaria seus pais, que ali estavam como réus, por crime de maus tratos contra a jovem de 16 anos e seus três irmãos mais novos. Ao tomar  a palavra, melhor do que muito advogado experiente, explicou que o genitor é alcoólatra, a mãe tem crises epiléticas severas, quase  diárias, e,  quando não toma  remédio, o que deveria acontecer diariamente, mas nem sempre o posto de saúde fornece a dose diária para o mês,  se torna extremamente agressiva com  todos, principalmente, com os filhos, ainda pequenos.

 A adolescente, então, detalhou sua rotina dentro da família, ao levar os irmãos menores para escola, onde permanecem o dia todo, inclusive com alimentação; em seguida, vai ao colégio, pois cursa a primeira série do segundo grau; ao voltar, medica sua mãe e depois de limpar a “casa” faz seus deveres escolares e ,por óbvio, já  lavara roupas e preparara, com o que tiver, devido à ajuda alheia, o jantar.
Por vezes, aliás, muitas vezes, busca sua mãe na rua,  em crise e, com muito cuidado, a traz de volta à casa, coisa que não consegue fazer mais com sua irmã, de 14 anos de idade, viciada em drogas. Depois de narrar sua história senti, como poucas vezes aconteceu,  vontade de chorar,  percebi de que adiantaria punir os genitores doentes porque, na real, quem cumpriria as penas seriam, com certeza, as próprias vítimas ! Constatei mais, que o Judiciário não tinha remédios ou argumentos para resolução do caso; o Ministério Público se tornara inútil; o Governo indolente  na busca de resolução de problemas sociais; e o País veiculado pela mídia e propagandas não passa de uma enorme mentira, quando diz que está tudo sob controle, que não  há miséria,  que há saúde pública e  os jovens  estão amparados por programas sociais ! 

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